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Conectividade julho 23, 2026 · 8 min de leitura

As perguntas sobre redes que antes pertenciam à área de compliance

Mateomeo Entusiasta de espaço e conectividade

Entre fevereiro de 2024 e dezembro de 2025, uma série de rompimentos de cabos submarinos no Mar Báltico e no Mar Vermelho serviu como um lembrete contundente para as equipes de redes em todo o mundo: os caminhos físicos pelos quais os dados trafegam estão expostos a eventos que não podem ser previstos nem controlados.

O apagão de 2025 na Península Ibérica reforçou essa realidade, deixando redes elétricas nacionais fora do ar e, com elas, a conectividade que empresas da região presumiam estar sempre disponível. E quando ocorreu a interrupção da região AWS US-East-1, em outubro de 2025, uma falha em uma única região de nuvem provocou efeitos em cascata sobre milhares de empresas em todo o mundo. Nuvem e conectividade, por mais resilientes que sejam por projeto, ainda podem falhar.

Nenhum desses incidentes teve como alvo uma empresa específica. É justamente isso que os torna tão instrutivos. Um banco em Lisboa e uma operadora de logística em Roterdã descobriram a mesma coisa ao mesmo tempo: sua resiliência dependia de uma infraestrutura cujas rotas físicas e modos de falha estavam fora de seu controle.

Os critérios de avaliação se expandiram

Durante a maior parte das últimas duas décadas, as empresas avaliaram a conectividade com base em um conjunto familiar de critérios. Cobertura vinha em primeiro lugar, seguida pelo desempenho. O custo geralmente encerrava a discussão.

Esses fatores continuam importantes. O que mudou é que um segundo conjunto de perguntas saiu do departamento de compliance e passou a fazer parte das revisões de arquitetura de redes.

Quem governa a infraestrutura pela qual meu tráfego circula? Para onde, de fato, segue o caminho dos dados? Se algo falhar na infraestrutura upstream, as operações poderão continuar de forma independente?

Parte dessa mudança decorre do local onde os dados passaram a residir. Duas décadas de migração de cargas de trabalho para a nuvem e de terceirização da infraestrutura trouxeram enormes ganhos de eficiência. Mas também colocaram dados críticos nas mãos de terceiros, cujos termos, jurisdições e prioridades são constantemente reavaliados.

As interrupções são apenas a parte visível do risco. A questão fundamental é a propriedade: quem, em última instância, controla o ambiente do qual uma empresa depende?

O restante vem da experiência prática. A pesquisa da Heavy Reading de 2025 revelou que 81% das empresas afirmam que a perda de conectividade afeta imediatamente suas operações e a experiência do cliente. A Computer Weekly informou, no final de 2025, que interrupções de TI custavam a um banco de investimentos do Reino Unido cerca de £600 mil por hora, com custos crescendo nos setores mais dependentes de infraestrutura, como bancos e energia. E uma pesquisa da Kiteworks constatou que uma em cada três organizações enfrentou incidentes relacionados a quem podia acessar ou movimentar seus dados. Alguns casos envolveram violações de segurança ou transferências inadequadas; outros envolveram acesso governamental inesperado.

Como o satélite se encaixa nesse cenário

A conectividade via satélite tornou-se central nessa discussão por uma razão estrutural: ela oferece um caminho de dados que não depende da infraestrutura terrestre cuja fragilidade deu início a todo esse debate.

Quando cabos são rompidos ou uma rede elétrica nacional fica indisponível, um enlace que trafega pelo espaço está em um domínio de falha genuinamente separado. À medida que o espaço se torna um componente cada vez maior das redes globais, as questões relacionadas à soberania naturalmente passam a incluir esse ambiente.

O desenvolvimento mais interessante é arquitetônico. Redes cuidadosamente projetadas permitem que empresas obtenham características de soberania utilizando infraestrutura comercial, seja por meio de capacidade dedicada e gateways controlados, seja simplesmente por meio de rotas auditáveis. Operadoras como a SES estão seguindo essa abordagem, incorporando princípios de arquitetura soberana às constelações existentes, em vez de tratar uma infraestrutura totalmente dedicada e de propriedade do cliente como a única resposta realmente viável.

Para as empresas, isso muda a lógica econômica. A soberania deixa de ser uma escolha binária entre possuir tudo ou não possuir nada e passa a ser um conjunto de decisões de projeto de rede.

Levando princípios de soberania para serviços comerciais

Quando a maioria das pessoas ouve a palavra “soberania”, pensa em governos e departamentos de defesa. Mas essa associação já é limitada demais.

O pensamento voltado para a soberania passou a fazer parte de um número cada vez maior de discussões sobre arquitetura de redes, e as organizações que impulsionam essa conversa são comerciais.

Um banco regulado que precisa de conectividade em conformidade para agências em regiões pouco atendidas.

Uma empresa do setor de energia operando redes elétricas inteligentes e plataformas offshore onde redes terrestres simplesmente não chegam.

Uma multinacional cujas operações essenciais não podem tolerar uma interrupção prolongada em qualquer país.

A análise da Forrester segue a mesma direção ao definir soberania a partir de quem controla a tecnologia de rede e como ela é operada e regulamentada. A questão envolve quem toma as decisões sobre roteamento e governança quando o tráfego cruza fronteiras e quanta visibilidade a empresa possui sobre essas decisões.

Como o satélite se encaixa nesse cenário

A conectividade via satélite tornou-se central nessa discussão por uma razão estrutural: ela oferece um caminho de dados que não depende da infraestrutura terrestre cuja fragilidade deu origem a todo esse debate.

Quando cabos são rompidos ou uma rede elétrica nacional fica indisponível, um enlace que trafega pelo espaço pertence a um domínio de falha verdadeiramente separado. À medida que o espaço passa a integrar de forma crescente as redes globais, as questões de soberania naturalmente se estendem a ele.

O desenvolvimento mais interessante é arquitetônico. Redes cuidadosamente projetadas permitem que empresas obtenham características de soberania utilizando infraestrutura comercial, seja por meio de capacidade dedicada e gateways controlados, seja por meio de rotas auditáveis. Operadoras como a SES estão construindo essa abordagem ao incorporar princípios de arquitetura soberana às constelações existentes, em vez de considerar uma infraestrutura totalmente dedicada e pertencente ao cliente como a única solução possível.

Para as empresas, isso altera a economia da conectividade. A soberania deixa de ser uma escolha binária entre possuir tudo ou nada e passa a representar um conjunto de decisões de arquitetura de rede.

Controle não é uma solução única para todos

Ter controle total sobre todos os segmentos, cobrindo a camada espacial e toda a infraestrutura terrestre, torna-se rapidamente caro. A maioria das operações comerciais não precisa desse nível de controle em todos os lugares, e presumir o contrário aumenta os custos dos projetos sem melhorar a resiliência.

O verdadeiro exercício é o mapeamento.

Um caminho de rede de ponta a ponta possui diferentes segmentos, e cada um deles pode ser avaliado de forma independente. Uma empresa pode precisar de roteamento rigorosamente nacional e criptografia gerenciada pelo cliente para suas transações financeiras, enquanto aceita infraestrutura comercial compartilhada para o tráfego corporativo cotidiano.

Uma empresa de energia pode priorizar a auditabilidade dos caminhos de rede entre diferentes jurisdições para a telemetria de seus dutos, tratando a conectividade dos escritórios como uma decisão padrão de aquisição.

A regulamentação segue a mesma direção. O DORA, no setor financeiro, e a NIS2, voltada para infraestrutura crítica, vinculam requisitos de governança a categorias específicas de dados e operações. A Lei de Dados da União Europeia (EU Data Act) acrescenta obrigações que atravessam diferentes setores, e nenhuma dessas regulamentações trata a rede como um elemento único e indiferenciado.

Adequar o nível de controle às necessidades reais de cada segmento é o que diferencia uma arquitetura soberana comercialmente viável de outra que existe apenas em um documento de aquisição.

O trabalho que vem pela frente

Para qualquer organização que dependa de uma conectividade que não pode se dar ao luxo de perder, o trabalho imediato não é glamouroso.

Ele começa com um inventário dos caminhos percorridos pelos dados e da identificação de quais segmentos transportam quais tipos de informação.

A partir daí, o exercício consiste em mapear os requisitos regulatórios e operacionais, juntamente com as necessidades reais de cada aplicação, comparando-os com as opções disponíveis em cada segmento da rede.

E essas opções são avaliadas por mais do que apenas controle. Desempenho e estabilidade têm o mesmo peso.

Espaço, gateway, rede terrestre e interconexão terrestre: cada elemento deve ser avaliado de acordo com suas próprias características.

As organizações que iniciarem esse mapeamento agora estarão decidindo seu nível de exposição de acordo com seu próprio cronograma, e não durante a próxima grande interrupção.